Era uma quarta-feira de meia nuvem, de meio sol. Já passava das 14 horas. Atrasada para o trabalho, eu descia de carro a avenida Mestra Fininha em direção ao centro. De longe vi dois homens fardados em frente à Escola Normal (Colégio Normal Oficial Professor Plínio Ribeiro). Seriam policiais ou seguranças? 

Vestiam uniformes cinza, com quatro faixas refletivas de cor laranja atravessadas no tórax. Estavam de costas, sobre o passeio à direita. O que teria acontecido? Algum crime? Talvez um atropelamento, coisa comum naquele local. Dois ônibus escolares daqueles ingleses estavam estacionados, momentaneamente, para o desembarque. 

Aproximando e parando ao lado deles, no sinal fechado, atrás de muitos carros, prestei atenção à aglomeração, às muitas pessoas circulando por ali. Vi que não era colisão nem assalto. Duas mulheres estavam posicionadas em frente à porta de trás do primeiro ônibus. Eram professoras. Algumas crianças tinham descido dos coletivos amarelos. Eram pequenas, de uns quatro anos, se tanto. 

Pela maneira e circunstância, deviam ser da zona rural. Seriam umas 30 crianças pobres, de roupinhas simples, sem uniforme, sem mochila. As professoras coladas nelas organizavam a fila, uma no começo e outra no fim do grupo. Uma estranha fila, na qual as crianças tinham as duas mãos colocadas nos ombros do colega da frente, uma mão de cada lado. 

Não faziam barulho além do habitual. Mas eu poderia não ouvi-las bem por estar com os vidros do carro fechados. O sinal abriu e eu tinha de seguir, deixar para trás aquele acontecimento que tanto me despertou a atenção. Fui me deslocando e seguindo a cena com os olhos, com o pescoço virado. Os meninos e meninas entravam na Escola Normal. 

Estavam naquela fila organizada com rígida disciplina, para que não se perdessem. Já com a metade serpenteando o muro, ultrapassando o portão, sendo engolida por ele, lá estavam crianças obedientes, controladas, indo para o prédio. A imagem mexeu com o meu coração. 

Era um sentimento não habitual, algo que oscilava entre o sublime de uma infância pobre e limpa e a ordem imposta durante um passeio. Deixei para trás os dois ônibus que escondiam quase toda a ação. Olhei mais uma vez pelo retrovisor, deixando ali aquela cena única que tinha me despertado um afeto ambíguo. Senti um aperto no peito, um gosto angustiado na boca. Na verdade uma tristeza diante da infância carente, oprimida, tão diferente das crianças ricas daquele bairro ali na frente, que tudo podem. 

Ao mesmo tempo, elas estavam bem cuidadas, aprendendo, passeando. Ali estava o futuro do Brasil. Novamente um sentir desconfortável me assaltou. Dois pensamentos: “oh senhora liberdade” e “vinde a mim as criancinhas”. Educar para não ter de punir. 

Cena banal, mas que me suscitou atenção, pensamentos, sentimentos. Receios e emoções. Crianças sensibilizam, despertam emoções. Amores vãos? “Toda forma de amor vale a pena”! Foi bem rápido, mas ficou eternizado em mim.