O dinamismo da língua não é segredo para ninguém. De um modo geral a língua vai, e raramente volta. Vocábulos em desuso podem até ressuscitar num texto, mas a boca do povo os recusa. Palavras são esquecidas e expressões vão para o limbo do nunca mais. Até porque as pessoas gostam de novidades, neologismos, estrangeirismos, e a gente até se surpreende quando vê o anglo saxão “blackout” virar apagão, assim sem nenhum pudor. Onde já se viu sair uma expressão em Inglês para entrar outra em Português, ainda mais com a sonoridade “ão”, difícil de o estrangeiro falar, o que em tese atrapalharia a popularização da Língua Pátria?

Escrevi no Facebook: ‘Até agora não entendi esse meu gosto por acreditar em notícias falsas. É estranho e bom, quase como crer nas histórias da carochinha. Da mesma forma que “o nosso amor a gente inventa”, um pouco de ilusão dá tempero à vida. Sem contar que as fake news ganham eleições. Tenho companhia ou estou só nessa?’ Alguns amigos duvidaram, outros fizeram acréscimos. Foi ele, Donald Trump, quem notabilizou o termo fake news, que existe desde o século XIX. Depois acrescentei: ‘Amigos, é apenas uma provocação. Sou o pai e a mãe do ceticismo, inclusive sou agnóstica dos quatro costados. Imparcialidade sempre. Não à mentira. Desconfiança ampla, geral e irrestrita’. Foi um pretexto para usar a palavra estrangeira.

Meu primeiro contato com o universo do CTI – Centro de Tratamento Intensivo - foi em janeiro de 1980, na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Foi quando iniciei minha Residência Médica em Clínica Médica, antes de fazer os dois anos de Endocrinologia e Metabologia. Na porta de vidro estavam grafadas três iniciais em cor prata, o setor ocupava toda uma ala hospitalar, tinha onze leitos e os médicos residentes trabalhavam 12 horas por dia, durante quatro meses. Aprendi a ser gente foi lá, uma espécie de inferno organizado, na minha visão da época. Anos depois, a Santa Casa de Caridade de Montes Claros inaugurou seu CTI, com as mesmas letras na porta. No período de 1991 a 2001, nele atendi crianças em coma diabético. Não havia CTI infantil. Então, na minha cabeça, o nome sempre fora esse. De repente, como se houvesse uma crise de identidade ou um capricho inexplicável, o nome foi mudado. O noticiário da TV passou a falar e só falava UTI – Unidade de Tratamento Intensivo. Nos locais desse tratamento e para onde só deveria ir gente com possibilidade de recuperação, centro virou unidade. Eu nunca falei essa expressão. Não sei datar aquele fato, que já dura anos, no entanto reparei que, de umas semanas para cá, alguns repórteres voltaram a dizer CTI. De onde teria vindo esse tipo de ordem? Quem inventa esse vai e vem? Virá uma contra-ordem e a unidade volta?

A televisão proibiu as pessoas de dizer “medir pressão” e “perder peso”, ordenando “aferir pressão” e “eliminar peso”. Para mim, aferir é quando o INMETRO pega uma balança ou um aparelho de pressão e faz a aferição. Perder ou eliminar dá no mesmo, não facilita e nem dificulta, pois a perda de peso costuma ser penosa e retornável. Aceito mudanças sem choro, mas não gosto de imposições. Quando artificiais acabam por condenar as palavras ao esquecimento.