Os mineiros adoram um feijão tropeiro. Mas que relação tem o feijão tropeiro com a logística? Fácil, o feijão tropeiro era o alimento típico dos tropeiros, que o criaram e o utilizavam, pois eram preparados com ingredientes fáceis de transportar e de manter, e os tropeiros eram os responsáveis pela logística nos rincões deste Brasil, principalmente no interior das Minas Gerais.

Os tropeiros compravam, armazenavam e distribuíam alimentos produzidos no interior, como rapadura, queijo, farinha, milho e outros, que eram levados para os centros maiores em lombos de burros, onde eram negociados. 

Na volta, levavam o sal, importante para tudo na cozinha, tecidos, calçados e outros produtos, normalmente já encomendados pelos fregueses lá da roça. 

Passavam um tempo comprando ou recebendo produtos em consignação e, quando montavam uma carga, ocupando 14 animais, programavam a sua partida. A tropa era completada com a mula madrinha. 

As tropas que foram objeto de minhas pesquisas, partiam das regiões do Serro, Conceição do Mato Dentro, Morro do Pilar e Itambé do Mato Dentro e levavam seus produtos para Governador Valadares e toda sua região, indo também para João Monlevade, Itabira, Santa Bárbara, Santa Luzia, Belo Horizonte e outras cidades. 

Os caminhos destas tropas, vindo para Belo Horizonte e Santa Luzia, passavam por Senhora do Carmo, Ipoema, Bom Jesus do Amparo, Caeté, José de Melo (hoje Nova União), Taquaraçu de Minas e Jaboticatubas.

Os tropeiros “pousavam” cada noite em um determinado local, já conhecido por eles, onde eram acolhidos por moradores ou fazendeiros. Nestes pousos, eles preparavam o hoje famoso feijão tropeiro. Alguns ingredientes, como a couve e os ovos, eram adquiridos dos moradores ou fazendeiros locais. Muitos destes pousos se transformaram em lugarejos e depois em cidades.

A convivência dos tropeiros com a sociedade local era de sinergia, pois eles eram responsáveis por toda a logística da época, levavam produtos naturais ou manufaturados para os centros maiores e retornavam com produtos de grande necessidade. Um exemplo claro disto era o sal, que não poderia ser adquirido sem a logística dos tropeiros.

Meu saudoso pai, José Simões Filho, tropeiro até o final da década de 1950, contava que a volta dos tropeiros era um evento muito aguardado, pois além de produtos importantes para a sociedade da época, eles levavam notícias. 

Alguns dos poucos jornais e cartas dos familiares e amigos. O rádio era muito raro no interior naquela época, portanto os tropeiros levavam as notícias.

Com a chegada dos caminhões, com a abertura de estradas, mesmo que precárias, os tropeiros deixaram de ser competitivos enquanto instrumentos de logística, mas já tinham cumprido muito bem o seu papel. 

Já tinham participado da sobrevivência dos pequenos lugarejos do interior das Minas Gerais.