Cerca de 80% da carne comercializada em Montes Claros vem de abates clandestinos, denuncia o coordenador regional do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Marco Túlio Pelaquim. A irregularidade põe em risco a população: o consumidor pode contrair doenças como cisticercose, tuberculose e brucelose.

“Essa carne é oriunda de animais abatidos de forma clandestina, cruel, desumana e sem nenhuma inspeção ante-morten (antes do abate) e sequer post-mortem, deixando-nos alarmados”, diz Pelaquim. 

Para o coordenador do IMA, “falta atitude da Vigilância Sanitária do município para que a população tenha acesso a produtos de qualidade”.

As informações já foram repassadas à Câmara Municipal. O vereador Sóter Magno (PP) cobrou, na tribuna do Legislativo, providências. 

“A Secretaria Municipal de Saúde, por meio da Vigilância Sanitária, precisa intensificar a fiscalização”, exigiu. 

Ele chamou atenção para a possibilidade de transmissão, ao consumidor, da brucelose, doença infecciosa também conhecida por mal de Bang. 

De acordo com Pelaquim, a fiscalização do comércio de carnes se faz, por lei, pela Vigilância Sanitária do município, e o IMA só inspeciona quando é acionado pelo Ministério Público.

Ele esclarece que dois frigoríficos de Montes Claros possuem registro e acompanhamento permanente de médicos veterinários e fiscais do instituto. Um terceiro está se adaptando às normas. 

O diretor do IMA informa que chegou ao percentual de 80% de carne clandestina no comércio com base “no consumo per capita de 150 gramas, capacidade de abate diária dos frigoríficos e o fato de o município ter 400 mil habitantes”.

Segundo ele, mais dois frigoríficos buscam a obtenção do registro de abate, sendo um de suínos e bovinos, em Januária, e outro de ovinos, caprinos e pescados em São João da Ponte.

“Os projetos foram aprovados. Os dois aguardam apenas as licenças ambientais, o que deve contribuir para que um número maior de carne de boa procedência chegue ao mercado em Montes Claros”. 

A auxiliar de serviços gerais Simone Soares Araujo, de 31 anos, moradora de Januária, conta que pelo menos uma vez por mês faz compras em Montes Claros. 

“Quando se trata de carne, prefiro adquirir o produto em supermercados, que são mais confiáveis”, argumenta. 

Ela lembra que examina cuidadosamente o alimento, observando prazo de validade, presença do Selo de Inspeção Federal (SIF) e aparência.
 
MALEFÍCIOS
Otaviano Pires, professor do curso de Medicina Veterinária da Funorte, explica que “o principal problema da carne não inspecionada diz respeito à cisticercose bovina, infecção que (no homem) causa inclusive problemas no sistema nervoso, neurológico”. 

Ele acrescenta que o consumo de carne de procedência duvidosa, sobretudo pela falta de higienização no abate, “pode transmitir coliformes fecais, salmonelas que provocam problemas de ordem digestiva no ser humano, além de duas doenças muito comuns em bovinos: a tuberculose e a brucelose bovina, zoonoses transmissíveis pela carne crua ou mal cozida”. 

Ele recomenda aos consumidores só comprarem carne que tiverem o selo de procedência.

Procurada, a gerência de Vigilância Sanitária do município afirmou, por meio de nota, que o setor “trabalha focado com o objetivo de proteger, minimizar ou eliminar riscos à saúde pública”. Mas não informou quantas fiscalizações são realizadas nem as penalidades para os açougues que vendem carnes de abates clandestinos.