Os familiares das vítimas da tragédia de Janaúba são contra a inauguração da creche que ficará no lugar da Gente Inocente. Eles alegam que o espaço deveria ser um memorial às vítimas do incêndio e não concordam que os sobreviventes voltem a estudar no mesmo local. 

A nova instituição, que será inaugurada hoje, ainda não tem nome e foi construída no terreno onde era a Gente Inocente. Inicialmente, a proposta da Secretaria de Educação de Janaúba é não abrir novas vagas e sim voltar com os antigos alunos e funcionários que sobreviveram ao incêndio ano passado, que matou 14 pessoas.

A mãe de Ycaro Rafael Silva, Elisângela Correia, não quer que o filho retorne ao local. O menino voltou a estudar, mas ainda tem dificuldade de adaptação. “Vi o sofrimento dele. Jamais poderei aceitar que ele volte ao mesmo local onde viu professores e colegas sendo queimados. Ele lembra de tudo, chora muito, não esquece o que viveu naquele dia de terror”, diz. 

Luciano Nunes também já voltou a estudar em outra creche. Ele ainda sofre com problemas de respiração, pois inalou muita fumaça e, constantemente, volta ao hospital para fazer inalação. “Chora quando tem que ir para escola, imagina se fosse nessa nova creche então?”, questiona Flávia Nunes, mãe de Luciano. 

O caso de Rhuan Emanuel foi mais grave, pois teve 30% do corpo queimado, principalmente no rosto, e ficou dois meses internado. “Meu filho está irreconhecível, não voltou estudar, mas quando passamos em frente ao local ele conta em detalhes tudo que viveu. Esse terreno poderia ser usado para um centro de reabilitação para os sobreviventes”, conta Daiana Cristina, mãe de Rhuan.


‘É uma tremenda falta de respeito’
Mesmo contrariando o desejo das famílias, a creche será inaugurada neste sábado, às 9h.

Os quatro filhos de Luana Ferreira de Jesus estavam no dia do incêndio. Ana Clara, que era irmã gêmea de Vitor Hugo, não sobreviveu.

“É uma tremenda falta de respeito pelas pessoas que ali morreram. Deveria ser um memorial, um local para prestar homenagens”, lamenta Luana Ferreira. 

Luiz Davi Carlos Rodrigues, de 4 anos, faleceu 40 minutos após o incêndio. 

“A dor é insuportável, choro todos os dias. Não aceito essa escola. É como se quisesse apagar o que aconteceu e isso jamais vai ser esquecido”, diz Fernanda Rodrigues, mãe de Luiz Davi. 
 
AMOR À PROFISSÃO
A professora Marley Simone continua internada no Hospital Regional de Janaúba. Mesmo com a saúde debilitada, ela pensa em voltar a lecionar. 

“Escolhi ser professora de criança porque sou apaixonada pelos pequenos. Quando estiver boa quero voltar a lecionar e dar muito carinho para meus alunos”, afirma Marley

Ela não consegue contar sobre o que aconteceu no dia do incêndio. Prefere o silêncio, pois as tristes lembranças estão marcadas para sempre.

“Não quero voltar para aquele lugar. Foi um dia de terror”, sintetiza a professora.