O início do prazo para que os contribuintes façam as declarações de Imposto de Renda, em 1º de março, inaugurou também a temporada de caça dos bancos a clientes dispostos a fazer a antecipação de restituições na forma de empréstimos. Com condições supostamente favoráveis – já que os juros são mais baixos que os de outras modalidades de crédito, como os cartões, o cheque especial e mesmo o CDC –, a operação pode até parecer atraente. Mas especialistas advertem: só vale a pena se o tomador do dinheiro tiver dívidas mais caras e usar os recursos antecipados exclusivamente para quitá-las.

“Só será vantagem se o cliente tiver algum tipo de compromisso anterior a pagar, com taxa superior à oferecida para a antecipação da restituição”, garante o professor de Finanças Eduardo Coutinho. 

Entre os juros mais pesados destacam-se os do cheque especial (com taxas que chegam a quase 15% ao mês) e do cartão de crédito (superiores a 300% ao ano). “Alternativa interessante seria se a pessoa tivesse em vista uma aplicação para aquele dinheiro com juros maiores que os que vai pagar ao banco. Mas isso é muito difícil de ocorrer”, diz Coutinho.

Consenso, porém, é que pegar o dinheiro antes da hora – a restituição será feita em sete lotes, sempre no dia 15, de junho a dezembro – , só para reforçar a conta bancária ou comprar bens e serviços não é boa ideia. “Juros são despesas financeiras que pesam no orçamento e não há sentido em criá-las, a não ser que a pessoa tenha razões muito fortes naquele momento”, alerta o professor e consultor financeiro Paulo Vieira.

Ele desaconselha pegar empréstimo baseado na garantia da restituição de IR, pagando juros por isso. “Melhor mesmo seria aguardar a chegada dos recursos no lote da restituição, com correção pela taxa Selic”. 
 
CONDIÇÕES
Os principais bancos do país já divulgaram condições para a antecipação do IR. As exigências incluem que o interessado seja correntista e indique agência e conta à Receita, que tenha limite de crédito pré-aprovado e que apresente recibo da restituição na contratação. As taxas variam de 2% a 5% ao mês (média de 3,5%) e o total a ser tomado pode chegar a R$ 20 mil (Banco do Brasil). Também há a possibilidade de as operações serem feitas por aplicativos ou pelo internet banking – o recibo do IR é enviado pela web.

Na divulgação dos empréstimos, alguns bancos admitem que a oferta é interessante, sobretudo, para quem pretenda trocá-los por dívidas com juros mais altos. Casos do Banco do Brasil e Santander. 

Informativo do BB garante: “a linha pode ser boa alternativa para substituição de dívidas mais caras”. Em nota, o Santander classifica o empréstimo como “ótima opção para quitar dívidas ou empréstimos com taxas maiores”.


Juros dependem dos prazos 
Caso o consumidor queira aproveitar a oferta de empréstimo dos bancos baseado na restituição de IR, especialistas lembram que a cobrança final de juros pela operação depende do tempo de demora para que a restituição seja paga.

Um pequeno erro na declaração, por exemplo, pode atrasar a devolução e acarretar um aumento no valor da dívida, sem falar na possibilidade de que o contribuinte entre na malha fina, o que posterga ainda mais o eventual depósito dos recursos e o peso dos juros. 

Exemplo: o cliente tem R$ 2 mil a receber e deseja antecipar R$ 1,8 mil em forma de empréstimo. No BB, se ele obtiver a menor taxa disponível (1,89%) e a restituição for paga no terceiro lote (15 de agosto), a cobrança pelo empréstimo somará cinco meses de juros. No cômputo final, os R$ 1.800 se transformarão na dívida de R$ 1.976,65.

Se, por algum problema, a restituição vier no sétimo e último lote, em dezembro, a mesma dívida saltará, com oito meses de juros, para R$ 2.090,86. Já no caso de o cliente cair na malha fina a solução será ir ao banco e quitar a dívida com outra fonte, antes que vire uma bola de neve.