Atividade física democrática, indicada para qualquer idade, a dança ajuda a melhorar a agilidade e o equilíbrio, aumenta flexibilidade e coordenação motora e alivia o estresse. Expressão corporal usada há milhares de anos, é também poderosa ferramenta terapêutica, cuja contribuição passa pela melhora da autoestima e do bem-estar emocional, só para ficar em alguns exemplos.

Bailarino e coreógrafo com quase 50 anos de experiência, Ivaldo Bertazzo comprovou por meio de um projeto recente como movimentar o corpo gera benefícios que vão além da satisfação do corpo. À frente do Próximo Passo – iniciativa da Libbs Farmacêutica –, o profissional usou a dança para mudar a vida de pessoas com depressão. 

Após quatro meses de ensaios, o grupo de 40 pessoas com histórico da doença se apresentou em um teatro de São Paulo, no fim do ano passado. O trabalho também rendeu exposição fotográfica, que narra o processo de superação dos participantes e a recuperação da confiança e da motivação, e um documentário, ambos lançados no início deste mês.

Mais de mil pessoas se inscreveram no projeto, que teve participação de cinco bailarinos profissionais. 
 
NEUROTRANSMISSOR
Psiquiatra na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora do projeto, Giuliana Cividanes explica que durante a dança o corpo libera neurotransmissores ligados à sensação de bem-estar, prazer e motivação. De acordo com ela, além de levantar a bandeira da inclusão, o projeto foi capaz de demonstrar os efeitos positivos do movimento sobre o emocional dos participantes. 

“Do ponto de vista da auto-estima há um ganho muito grande. Pensamos a depressão como uma doença multifatorial e a dança pode sim ser encarada como coadjuvante do tratamento, contribuindo para a regeneração das células cerebrais”, explica.

Conforme a especialista, os benefícios “vão desde o dedão do pé ao fio de cabelo” e podem ser auxiliares no tratamento de diversas doenças e na recuperação não só emocional, mas física. 
 
SOCIALIZAÇÃO
Uma das integrantes do grupo, a arquiteta Ana Elisa Barbosa Cintra, de 60 anos, convivia há 13 com os sintomas da doença, vista pela Organização Mundial de Saúde como a mais incapacitante do mundo. Graças à dança, voltou a socializar-se e deu um passo à frente na própria recuperação após a morte do pai. 

Aos 39 anos, Ronaldo Cardoso também transformou a atividade iniciada com o projeto Próximo Passo em válvula de escape para a doença na qual sentia-se aprisionado.

“Esperava o fim de semana chegar para dançar, dançar e dançar. Deixei de ser prisioneiro de algo que não era meu e sobre o qual não tinha controle”, comemora, ao término do projeto. 

Método desperta a consciência individual 

Dançaterapeuta à frente do Centro Internacional de Dançaterapia Maria Fux no Brasil e na Itália, Pio Campo também atua com a dança como instrumento terapêutico capaz de despertar a consciência individual para corpo e mente. Criado pela bailarina e coreógrafa argentina Maria Fux, o método tem cerca de 30 profissionais formados no Brasil e é ensinado em cidades de Minas, São Paulo, Santa Catarina e Goiás e no Distrito Federal.

Segundo o profissional, o objetivo da técnica, destinada a homens e mulheres de qualquer idade e aplicada no campo da educação e da reabilitação, é ampliar as capacidades humanas, ajudando na superação de bloqueios emocionais, na rigidez postural e no medo do contato com o outro.

“Não há nada maior do que voltar para o próprio respiro, se reconectar consigo mesmo, sentir que apesar de tudo estamos vivos e que podemos realmente nos transformar a cada hora e instante”, afirma o profissional. 

Embaladas por gêneros musicais, pelo barulho da rua ou pelos sons da natureza, as aulas, que duram uma hora, estimulam a reconexão individual e têm foco no funcionamento do corpo e no que há de positivo nele – principal diferença para outras terapias, conforme Campo. 

“A dançaterapia não substitui a ciência, mas é um caminho a ser acrescentado no processo de cura. Ao contrário da medicina, que é focada na doença, colocamos a atenção naquilo que funciona e há de positivo em cada pessoa”, explica o profissional.