Distante 205 quilômetros de Montes Claros, o Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Rio Pandeiros, em Januária, no Vale do Peruaçu, é o único pântano mineiro. Uma área superior a 6 mil hectares que guarda uma riqueza natural de rara beleza e diversidade.

A extensão do pantanal, de aproximadamente 145 km, fica lado a lado com a Área de Proteção Ambiental (APA) Pandeiros, considerada a maior unidade de conservação de Minas (396 mil hectares), abrangendo os municípios de Januária, Bonito de Minas e Cônego Marinho. 

Além da beleza cênica, nas águas do pântano de Pandeiros desovam cerca de 70% das espécies de peixes da Bacia Hidrográfica do Médio São Francisco, o que justificou a criação da Área de Proteção Integral em 2004. Ela é formada por um complexo de lagoas que se interligam no período chuvoso.

O conjunto ambiental é de extrema importância para a conservação da biodiversidade da área de drenagem e do próprio Cerrado. 

Nos dias 23 e 24 de junho, os jornalistas Carlos Castro e Manoel Freitas, de O NORTE, participaram de uma expedição ao refúgio, com o apoio do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

No grupo de exploradores, um dos maiores fotógrafos de aves de Minas, o ambientalista Lucas Alves, e Felipe Augusto Marques, aluno de Comunicação na Faculdades Unidas do Norte de Minas (Funorte). 

Com extensas áreas alagadas, lagoas, cachoeiras, pântano e foz do rio Pandeiros, o local é um berçário de águas verdes e cristalinas que escoam no São Francisco. Funciona como nicho que abriga centenas de espécies de répteis, mamíferos, anfíbios e aves.

O Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Rio Pandeiros abriga várias espécies de aves porque as diversas fisionomias vegetais oferecem uma gama de ambientes e recursos naturais. Dentre elas, segundo Lucas Alves, “a rara sanã de cara ruiva (Laterallus xenopterus), ave de difícil observação e com apenas 11 registros fotográficos no Brasil”.

A unidade de conservação possui também uma avifauna rica em espécies aquáticas, como jaçanã (Jacana jacana), biguá (Nannopterum brasilianus), pé-vermelho (Amazonetta brasiliensis), pato-de-crista (Sarkidiornis sylvicola), pato-do-mato (Cairina moschata) e o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus).

Nos dois dias da expedição, Lucas Alves e o fotógrafo de O NORTE, Manoel Freitas, registraram 52 espécies distintas, como a anhuma (Anhima cornuta), irerê (Dendrocygna viduata), noivinha-branca (Xolmis velatus), noivinha (Xolmis irupero), curutié (Certhiaxis cinnamomeus), socó-boi (Tigrisoma lineatum), gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), gavião-preto (Urubitinga urubitinga), falcão-de-coleira (Falco femoralis), martim-pescador-pequeno (Chloroceryle americana), ariramba-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda), lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta) e pomba-asa-branca (Patagioenas picazuro).

“O nome Pandeiros, segundo meus avós, tem origem na zoada que o rio faz”, conta Geraldo Raimundo Gonçalves, de 62 anos, garantindo que viu no refúgio, há cinco anos, uma sucuri de 7 metros enrolada em uma capivara, a mãe do pântano

Campo aberto para a ciência
O Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Rio Pandeiros atrai pesquisadores do país inteiro. O plano de manejo será concluído somente neste ano, 14 após a criação. Mas estudos apontam para a possibilidade da existência de espécies de mamíferos de pequeno porte ainda desconhecidas, devido às características peculiares da vegetação.

Gerente do refúgio, Neilton Viana diz que muitos peixes chegam a se deslocar até 2 mil km até o pântano mineiro. “De novembro a dezembro, a água escurece com os peixes que sobem para desovar. Em fevereiro, retornam ao São Francisco”.

Segundo ele, os peixes procuram o pântano em busca das condições adequadas para a reprodução na época da Piracema, ou seja, águas limpas, transparentes e sem poluição, com temperatura ideal para a postura de ovos. 

O gerente conta com equipe formada por 12 guarda-parques e com o apoio da Polícia Ambiental para dar manutenção e preservar toda a área.

Um dos grandes desafios para proteção do local são os bois e cavalos que invadem o complexo de lagoas, apesar das ações de educação ambiental que o IEF desenvolve com as comunidades que vivem às margens do rio Pandeiros.

De acordo com dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), a APA Pandeiros e o Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Rio Pandeiros participam do Conselho do Mosaico Sertão Veredas Peruaçu, “composto por um conjunto de áreas protegidas localizadas na margem esquerda do rio São Francisco”.

O Mosaico possui área de aproximadamente 1,8 milhão de hectares, “representando a porção de Cerrado mais conservada em Minas, envolvendo unidades de conservação estaduais, federais e particulares, comunidades quilombolas e terras indígenas Xakriabá”.