A epidemia de febre amarela, que já matou 108 pessoas em Minas, tem criado o cenário perfeito para a oferta de produtos que prometem espantar ou até mesmo eliminar o mosquito transmissor da doença. As soluções milagrosas também visam o combate à dengue, zika e chikungunya. No entanto, especialistas garantem que muitos itens, além de serem ineficazes, contribuem para aumentar a resistência dos vetores.

Na lista de soluções figuram poderosos repelentes e inseticidas e até alternativas caseiras, como uma simples borra de café. O exemplo mais recente é uma tinta que atuaria no sistema nervoso dos insetos, matando os bichos após o contato com a superfície pintada. É vendida por cerca de R$ 4 mil, incluindo o serviço de aplicação. Conforme informações da fabricante, o produto repele tanto o Aedes aegypti quanto os mosquitos Haemagogus e Sabethes, responsáveis pelo contágio da febre amarela. 
 
DESDE 2009
A substância utilizada na tinta, conhecida como deltametrina, deixou de ser recomendada pelo Ministério da Saúde em 2009, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Por meio de nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que o produto pode ser comercializado “em caráter temporário, até que seja publicada normativa que regulamente esta categoria”.

A bióloga Denise Valle, especialista em insetos e pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), explica que um estudo feito durante dez anos apontou que alguns mosquitos já se tornaram mais fortes. “O controle do Aedes é uma enorme oportunidade de negócios que, além de engordar a receita das empresas, causa falsa sensação de segurança nas pessoas”, avalia. 
 
SEM EFETIVIDADE 
Muitos inseticidas spray disponibilizados no mercado são vendidos como verdadeiras armas, mas o consumidor precisa ter atenção. Grande parte utiliza cipermetrina, imiprotrina e transflutrina, elementos que também perderam efetividade no combate aos vetores das doenças. 

Segundo a Fiocruz, das cinco substâncias que eram recomendadas pela OMS nesse tipo de produto, apenas uma, chamada malathion, continua válida. “Isso aconteceu porque todas as outras atuavam no sistema nervoso central do mosquito. Mas como houve mutação, elas não funcionam mais”, acrescenta a pesquisadora. 

Até mesmo repelentes para aplicação sobre a pele com o composto icaridina, vendidos como algo promissor, devem ser escolhidos com cuidado. Denise Valle explica que, apesar de a substância ser eficiente contra o Aedes aegypti, precisa ter “toda composição aprovada pela Anvisa. Ou seja, a formulação não pode agredir a pele e ainda precisa ter durabilidade minimamente razoável”.
 
MITOS
Soluções caseiras também podem ser uma aposta arriscada. Usar borra de café na água das plantas, velas de citronela, consumir vitamina B ou tomar gotas de própolis como forma de blindar o organismo são táticas sem nenhuma eficácia comprovada cientificamente. A médica Priscila Saleme, infectologista do laboratório Hermes Pardini, reforça que “até o momento, só a vacina é comprovadamente eficaz”.