Palco de práticas de tortura e repressão durante a ditadura militar, o prédio do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em Belo Horizonte, terá novo destino. O espaço será transformado no Memorial dos Direitos Humanos Casa Liberdade. 

O projeto foi apresentado pelo governador Fernando Pimentel, ontem, em solenidade no Palácio da Liberdade. “Será um espaço de memória e resistência”, enfatizou. 

Localizado na avenida Afonso Pena, 2.351, no bairro Funcionários, região Centro-Sul da capital mineira, o imóvel tombado é considerado de representação simbólica. 

O prédio será reformado emergencialmente. As obras estarão sob a responsabilidade do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) e ficará administrativamente submetido à Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac).

As atividades no espaço, como a definição dos temas e modos de abordar os diferentes assuntos, serão desenvolvidas a partir de levantamento histórico. O processo será baseado em depoimentos de pessoas que vivenciaram a ditadura e em debates com representantes de políticas de reparação simbólica. 
 
ESTRUTURAÇÃO
O memorial terá espaços museográficos e centro de pesquisa sobre a história política do país. O acervo documental será produzido pelas agências de repressão.  

Além disso, terá áreas para reuniões de grupos, associações e coletivos para a promoção de eventos culturais, seminários, debates e apresentações artísticas. 

“Teremos um centro de pesquisa onde vão ser abrigados arquivos da repressão em Minas, tanto da ditadura quanto no período do Estado Novo. Outro espaço vai abrigar as oficinas de criatividade, onde a ideia é que a universidade consiga trocar conhecimento com as comunidades e os coletivos”, detalha a professora Heloísa Starling, da UFMG, que ajudou a elaborar a Casa da Liberdade.

Segundo ela, ainda há a proposta de uma exposição permanente. “Queremos conservar a história do Dops e dos fatos que ocorreram ali”.

O arquiteto Gringo Cardia, que também trabalhou no projeto do museu, disse que a interatividade será usada para que para as pessoas reflitam sobre os valores de justiça e cidadania. “Vamos incentivar as ideias para o público a partir de oficinas de rap, poesia”, disse. 
 
LEMBRANÇAS
Durante a solenidade de apresentação do memorial, Fernando Pimentel disse que as atividades na Casa Liberdade serão importantes para a reconstrução da história de Minas Gerais. 

O chefe de Estado destacou ainda que, há 40 anos, cumpriu pena no local. “Passando pelo Dops, fui testemunha dos abusos que eram praticados desde 1973, nos anos de chumbo da ditadura militar”, relembrou. 

SAIBA MAIS
Depoimentos

A apresentação do projeto do memorial levou ex-presos políticos a relembrarem momentos do passado, como a psicóloga Emely Vieira Salazar.  
 
“Eles achavam que os estudantes não poderiam ter opinião, que eram contra o país. Fui presa por denunciar torturas, e lá (no Dops) fui conhecer o que realmente era tortura. Pau de arara, choque elétrico, palmatória, tudo quanto é tipo de tortura eu passei. Muita gente não sabe o que foi a ditadura e dizem que ela pode voltar. Dizem isso porque não sabem o que é uma ditadura. E o povo precisa saber disso, principalmente a juventude”, relatou. 
 
Para Nilcéa Moraleida Bernardes, também ex-presa política, o extinto Dops rememora os gritos da tortura e da repressão da época. “Quando voltei a ser presa, em 1974, uma coisa que me chamou atenção é que existia um revestimento acústico que em 1971 não tinha. Nessa época, eu ouvi, enquanto estava presa no subsolo onde ficam as celas, pessoas gritando horrores. Gente chegando para as celas em estado de morte iminente”, relembrou.