“Vou ser campeão mundial”. A promessa cheia de autoconfiança fixada nas redes sociais parece cada vez mais ao alcance de Esquiva Falcão. Aos 28 anos, pouco mais de cinco após a medalha de prata nos Jogos de Londres-2012, o capixaba está a uma vitória de poder desafiar o detentor do cinturão dos pesos-médios pela WBA (Associação Mundial de Boxe).

Coincidência ou destino, a tão aguardada luta teria ainda um sabor especial de revanche, pois o dono do título é justamente o japonês Ryota Murata, 32, vencedor daquela polêmica final olímpica. Antes, porém, Esquiva precisa superar o francês Salim Larbi, em duelo marcado para o dia 10 de março, em Los Angeles (Estados Unidos), onde o brasileiro vive atualmente com a família.
 
Você luta em março contra o francês Salim Larbi, mas não esconde que o seu objetivo é a possível disputa de cinturão, em junho. Como lida com a ansiedade?
O meu foco tem que ser total nessa primeira luta. Porque, se der alguma coisa errada e eu perder, isso vai atrasar a conquista do meu cinturão. Então, meu treinamento todo é específico para essa primeira luta. Tem uma certa ansiedade, sim, porque existem muitas conversas sobre a disputa de cinturão contra o japonês. Isso já está muito próximo de ser acertado, tudo bem encaminhado. Vencendo a minha luta, a seguinte já seria a do cinturão. Mas eu tenho que vencer antes para aí, depois, poder pensar só no título mundial.
 
Os lutadores, em geral, costumam limitar a rivalidade ao ringue. Qual é o seu sentimento em relação ao Murata?
Já encontrei com ele algumas vezes em lutas e eventos, conversei normalmente, mas eu tenho aquela coisa comigo. Não é raiva, nada assim, mas um gostinho de vingança. Quando eu olho para ele, não vejo ele ganhando, não vejo o boxe dele ganhando. Ele não me venceu nos Jogos Olímpicos, e eu preciso vingar aquela derrota. Tenho que ter essa revanche, porque quero provar para mim e para todo mundo que aquela final foi minha.
 
Você já disse que assistiu à final olímpica mais de 30 vezes. É algo que ficou engasgado mesmo?
Ficou engasgado, porque nenhuma das vezes eu vejo ele ganhando de mim. Já vi ele empatando a luta, mas ganhando, nunca. Eu cometi alguns erros, sim, mas não foram erros graves. Toda vez que eu levava um golpe, respondia com dois, três golpes em cima. Eu estava mais rápido do que ele. Acho que foi um erro do juiz mesmo, porque eu não vi, e todo mundo que eu perguntei, que assistiu à luta, também não viu ele ganhando de mim em nenhum momento.
 
Mesmo assim, você valoriza a sua prata? O que ela significa para você?
Com certeza, ela tem um significado muito grande para mim. O ano de 2012 foi muito importante na minha carreira, e essa foi a primeira medalha de prata do Brasil no boxe. Para mim, valeu ouro. Acho que, para o Brasil todo, valeu ouro. Carrego ela onde eu vou, literalmente. É um amuleto da sorte para mim.
 
Você assistiu às lutas na Rio-2016? Sentiu alguma pontinha de arrependimento por não estar ali, ainda mais com outro brasileiro conquistando o ouro inédito?
Eu queria estar nos Jogos de 2016, sim, lutando em casa, com a torcida toda ali me apoiando. Mas arrependimento, não. Do mesmo jeito que eu poderia ir lá e ganhar mais uma medalha para o Brasil, também poderia não conseguir, perder e sair criticado. Eu pensei muito, e acho que fiz a decisão correta. Sobre o Robson Conceição, eu assisti a todas as lutas e torci muito por ele, porque o Brasil precisava dessa medalha de ouro. Ela não veio para mim, mas veio para um companheiro. Nós treinamos juntos na Seleção por uns quatro ou cinco anos, então tinha também uma amizade. Eu cheguei a falar para ele ‘Robson, a medalha que tu ganhou não foi só tua não, foi de todo mundo que batalha pelo boxe e você representou ali’. Fiquei muito feliz pela medalha dele, mesmo quebrando a minha prata.
 
Em 2016, a participação de pugilistas profissionais na Olimpíada foi liberada. Você é a favor ou contra essa decisão?
Sobre esse caso, até recebi o convite na época, só que eu teria que disputar uma vaga na Venezuela (Pré-Olímpico Mundial de Vargas). Como estava muito em cima (julho), eu não quis arriscar minha carreira profissional naquele momento. É uma questão difícil, mas eu não apoio, porque acho que o boxeador precisa passar por fases, ser amador, ganhar experiência, disputar Olimpíada e, depois, ir para o profissional. É como se fosse uma escada que o atleta vai subindo para tentar ser um campeão mundial. Pegar um atleta profissional seria muito desequilibrado. Teria que mudar muita coisa, porque o boxe olímpico e o profissional são praticamente dois esportes diferentes, na técnica, nos treinos e até na pontuação.
 
Do seu ponto de vista, o cinturão mundial vale muito mais que a medalha de ouro olímpica?
Com certeza. A medalha serve para você ganhar reconhecimento. A minha prata serviu para isso, me abriu muitas portas. Mas um cinturão, eu tenho certeza que ele muda completamente a sua vida, inclusive financeiramente.

A ida para o boxe profissional já mudou a sua vida de alguma forma?
Sim, eu morava de aluguel e já consegui comprar a minha casa, comprar carro, e hoje moro nos Estados Unidos com a minha família. A minha vida mudou bastante. Essa é a diferença do boxe amador, olímpico, para o boxe profissional.
 
Houve uma época em que se discutiu se o MMA poderia superar o boxe. Você chegou a pensar em trocar de modalidade?
Cheguei a receber alguns convites depois da medalha olímpica. Mas teria que começar uma carreira do zero novamente. Teria que aprender os chutes, as defesas de chão, Jiu-jitsu, Muay thai, porque somente com o boxe você não sobrevive no MMA. Então, eu pensei que seria melhor continuar no boxe, onde eu comecei, onde já estava conquistando as minhas coisas. Não vi uma oportunidade muito boa ali, não.
 
Existe uma chance boa de vermos uma luta entre os irmãos Falcão? Já conversou com o Yamaguchi (medalhista de bronze dos meio-pesados em 2012) sobre isso?
Existe, existe, uai (risos)! Hoje, no profissional, nós dois lutamos na mesma categoria. Se eu conquistar o cinturão aqui (na WBA) e o meu irmão conquistar o cinturão lá da organização dele (Conselho Mundial de Boxe), essa luta pode sim acontecer, pela unificação. Já conversamos sobre isso, poderíamos pensar em promover uma grande luta para os brasileiros. Mas dependeria de muita coisa ainda. A equipe dele pode ter planos diferentes, fica difícil saber. O mais importante é tentar ficar com os dois cinturões na família.

“Ficou engasgado, porque nenhuma das vezes eu vejo ele ganhando de mim. Tenho que ter essa revanche, porque quero provar para mim e para todo mundo que aquela final foi minha”

“Hoje, nós lutamos na mesma categoria. Se eu conquistar o cinturão aqui e o meu irmão conquistar lá na organização dele, essa luta pode acontecer, pela unificação. Poderíamos pensar em promover uma grande luta para os brasileiros”