Após anos no magistério, a montes-clarense Felicidade Patrocínio graduou-se em Filosofia e fez pós-graduação em Filosofia e Existência pela UCB em Brasília e em História da Arte na Unimontes. Mas a área em que se sente realizada é a de artes. Desde menina estudou no Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez, onde concluiu o curso médio de Educação Artística. Ela foi eleita presidente da Academia Feminina de letras de Montes Claros para o biênio 2018/2019, e fala um pouco de si, da carreia e da área cultural da cidade. 
 
Como aconteceu na sua história pessoal essa descoberta em relação à arte?
Meu pai tocou vários instrumentos musicais. Na minha infância, deu-me um acordeon que me levou ao Conservatório, que freqüentei na adolescência, fazendo cursos na área da música. Quanto às artes plásticas, só tardiamente as experimentei. Apaixonei-me pela cerâmica e pela possibilidade de expressão que a arte me oferecia, então busquei técnicas para ampliar o meu trabalho e nunca mais a abandonei.
 
Fale um pouco de suas criações, de onde você tira inspiração
Direcionei o desenho feito sobre a cerâmica, desde sempre, para o afro-indígena-brasileiro. É uma tendência incontrolável. Gosto muito de símbolos arquetípicos e os disponho de toda maneira no desenho e entalhe da cerâmica. Já nas esculturas, valorizo a cultura local, através dos catopês, mas o tema central da minha inspiração vai para o abraço. Gosto de esculpir abraços variados: ternos, apaixonados, puros, solidários, sensuais. Penso que o abraço (mesmo o metafórico), é o porto que todos buscamos. Quanto à Literatura, baseio-me em personagens, vidas e fatos reais, pois considero a realidade mais fantástica do que a ficção. 
 
Seu ateliê tem muitas histórias, muitos encontros, lançamentos de livros, cursos. Que balanço você faz destes anos? 
Sim, o ateliê e galeria tem uma rotina muito produtiva. Criamos nele o Clube de Leitura, no qual discutimos obras literárias, orientados pelos maiores escritores do norte de Minas e por doutores da Academia universitária. A última obra discutida foi Dom Quixote de La Mancha com palestra proferida pela maior autoridade em Cervantes da América Latina, a professora da USP Maria Augusta da Costa Vieira. Muitos lançamentos de livros de escritores da cidade, e também de fora dela ocorrem no local. Criamos também o Escambo de Livros, um encontro anual onde comparecem centenas de pessoas com milhares de livros para trocar. É uma experiência fantástica. 

Ser artista nos dias atuais é tarefa nada fácil. Quais as dificuldades que você tem encontrado em seu ofício, aqui em nossa cidade?
Sim, não é fácil ser e permanecer artista fiel aos princípios da arte no Brasil, principalmente no Norte de Minas. Quando digo fiel aos princípios refiro-me à liberdade de criação, à expressão autêntica e não ao simplesmente decorativo, muitas vezes sugerido por marchands e galerias. Em Montes Claros, falta-nos quase tudo para o exercício da arte, só nos restando a coragem e força pessoal para continuar. A falta de patrocínios é gritante. Montes Claros não tem obras de arte nos espaços públicos. A cidade é de uma aridez estética espantosa. Até para presentear gratuitamente um espaço público com uma arte, o artista encontra dificuldade de permissão, ou a própria rejeição. E, no entanto, a cidade é celeiro de artistas de grande qualidade. Vejo muitos que começam bem e vão desistindo pelo caminho. É preciso apoiar as artes, o empenho artístico individual, pois as sociedades precisam dos artistas, não serão completas sem tê-los. Eles registram a beleza, as tragédias, o sentimento de um tempo, são eles que deixam as marcas mais expressivas de uma civilização.