O bailarino, coreógrafo e fisioterapeuta Paulo di Tarso nasceu em Montes Claros, mas gosta de dizer que é catrumano (caipira, roçeiro). Apesar de não parecer muito, se sente um sertanejo e isso o agrada. Neste ano, o artista celebra 35 anos de carreira.

“A arte veio no DNA. Não é uma ocupação, entendo mais como um sacerdócio. Faz parte de quem eu sou. E minha arte se concretiza na cena”, diz. 

“Nasci para o palco. A linguagem da dança cênica caiu como uma luva para o que eu queria expressar, então, me tornei bailarino e depois um coreógrafo. Depois de muitos anos de carreira, me propus a investigar o movimento, a base de minha linguagem. Foi quando entrei para o curso de fisioterapia. Me encantei com o universo acadêmico e, desde então, faço essa ponte entre esses dois mundos que parecem tão distante, Arte e Ciência”, defende Paulo. Confira outros detalhes em nossa entrevista.

Do seu pai, você herdou o gosto pelo sertão e de sua mãe, a erudição. 

A mistura deu certo. Tenho a honra de ser filho do fazendeiro Seu Renato (irmão do ilustre Edgar Pereira) e da Dona Lea, senhora da elegância e também fazendeira. Eles não são de Montes Claros. Meu pai é descendente de Maria Da Cruz (a própria) e vem de Januária. Minha mãe vem de Espinosa, filha de um juiz carioca que se apaixonou por uma moça dos sertões. 
 
Sua infância foi pura mágica não é?
Olho para traz e fico feliz por tudo que vivi. Fui aluno de Irmã Guido, no Colégio Imaculada. Isso é o máximo. Aliás, foi ela quem me despertou para o mundo do espetáculo. E que despertar. Está gravado tão forte em mim que, à mínima lembrança, me emociono e tenho vontade de abraçá-la, como agradecimento. Já fiz isso algumas vezes. 

Depois fui aluno do Irmão Bento, no São José. E aí aconteceu a dosagem certa da criatividade (estimulada pela Irmã Guido) com a disciplina. Quem foi aluno do Irmão Bento sabe do que estou falando. Ele era um terror para muitos. Já passamos noites em claro com medo dele. Mas foi um Mestre.

E o Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez?

Foi na infância que veio o Conservatório. Entrei lá com 6 anos. Naquele tempo, eram três aulas semanais de piano e teoria musical. Tive grandes professores e mestres maravilhosos. Nessa última categoria coloco Lucinha Teixeira. Nenhum mestre me estimulou tanto quanto ela. 

E afora os estudos eu sonhava... Assim como o Pedrinho, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que eu lia e relia. Tinha também a novela e eu achava que era um neto da Zilka Sallaberry (Dona Benta). Acho que foi essa mistura de Monteiro Lobato com Geraldo Casé (diretor do Sítio do Pica-pau Amarelo em 1977) que abriu minha imaginação. Abriu não, escancarou. 

Afora isso, adorava pilotar a Enterprise que havia criado na garagem da minha casa. Já era cenógrafo também (risadas). Andava descalço e com um short surrado. Que delícia!

Quando você descobriu a dança?
Aos 12 anos, assisti, por um acaso, a apresentação de uma companhia norte-americana de dança Alvin Nikolai. Meu irmão havia comprado ingressos para impressionar uma garota, mas na hora sobrou para mim. Eu estava em Belo Horizonte, passeando e fui, meio sem saber do que se tratava. Fiquei sem palavras. Ali, algo mudou. Voltei para Montes Claros e queria fazer algo do tipo em Montes Claros. Eita, o povo do Conservatório não achou muito interessante e guardei minha vontade.

Um ano depois, voltei a Belo Horizonte. Havia um espetáculo no Palácio das Artes e meu irmão, mais uma vez, me deu o ingresso. Fui. Era um domingo de tarde, entrei no Palácio das Artes, novamente sem saber o que me esperava. 

Quando a cortina abriu, minha vida se transformou por completo. Tudo  passou a fazer sentindo. Sabe na animação da Disney, quando o Patinho Feio vê os Cisnes? Foi assim. Encontrei meu espaço.

No palco, todo escuro, havia um  pequeno foco na lateral direta e sob ele uma mulher, vestida de branco, sentada, com uma bacia próximo. A voz cristalina de Milton Nascimento rompeu  o silêncio, com um  texto instigador. Quando o som do vilão começou e a mulher iniciou seu bailado, fui levado a um mundo de sensações indizíveis. Nada que eu pudesse descrever com palavras. Foi ali, assistindo Maria Maria do Grupo Corpo,  que entendi o fundamento da dança cênica. Eu me entreguei.

Quando o espetáculo terminou, e eu já havia traçado toda minha perspectiva para a vida, me escondi atrás de uma poltrona da audiência, para ver o que acontecia por trás da cortina. 

Haveria outra sessão após aquela e os artistas começaram a se preparar para isso. No palco, conversando e ensaiando, me mostraram minha futura rotina. A sorte estava lançada.

O bacana é que, anos depois, eu dancei no Grupo Corpo e tenho com eles um vínculo afetivo indissolúvel.

Foram muitos os cursos, estudos, pesquisas não é?
Certo do que queria fazer e que em Montes Claros não teria como, elaborei um plano grandioso para sair de Montes Claros. Esse plano me levou para o CEFET-MG, onde me formei como Técnico em Edificações. Assim, meus pais ficaram felizes e eu consegui estudar dança escondido, por anos.

O destino me levou para o Studio Anna Pavlowa, que na época era um celeiro do novo pensamento na dança. Artistas inquietos e grandes Mestres. 

Minha formação foi bastante tranquila. Sabe aquela história “O Universo Conspira”? Foi isso. Eu sempre estava no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas. Muito novo e bastante talentoso não tive esforço, a não ser o muscular para disciplinar meu corpo na técnica do ballet, o que é muito difícil.

Passei na audição do Bale da Cidade de São Paulo (corpo estável do Theatro Municipal de SP) onde trabalhei com os maiores nomes da dança nacional e internacional.

Senti saudades de Minas de da família e voltei. Entrei para o Grupo Corpo, onde tive uma experiência que talvez tenha sido a mais forte na minha vida artística e pessoal. A fascinação é tão grande que costumo dizer que ainda sou bailarino do Corpo, só não dança mais.

Depois de lá, fui para a Alemanha. Queria largar a dança e viver outras coisas. Já estava com 28 anos e não tive adolescência ou juventude. Até então minha vida era em salas de aula e palcos. Só que o destino não quis assim. Na Alemanha fiquei muito próximo da Dança-teatro, linguagem que tem como ícone a coreógrafa Pina Bausch. Isso me influenciou e voltei ao Brasil determinado a construir minha linguagem.

Foi em Montes Claros que encontrei a situação ideal para fundar uma companhia de dança-teatro. Foi assim que nasceu a Ditarso Companhia de Dança, onde estou até hoje.

Fale sobre suas obras
Já tenho minha identidade artística e ela está presente tanto nas obras para público infantil como para adultos. Minha primeira obra foi Pedro e o Lobo, que estreou em 2001 e por anos esteve em cartaz em Montes Claros e norte de Minas. Outra obra para público infantil é “Noitencantada”, escrito assim mesmo, tudo junto. Foi quando abandonei o mundo europeu para me entregar às questões do Norte de Minas. Foi bacana demais.

“Três dias antes e Três dias depois” é um dos espetáculos para público adulto mais dançado pela companhia. Criei em 2003 e foi quando mais entrei na universo da Dança-teatro. Ele nasce da ideia da Mandala, cujo desenho sempre direciona para o Self Junguiando. Aliás, Carl Jung é uma fonte recorrente no meu processo de criação.

Atualmente está trabalhando em algum novo projeto?
Começamos em 2018 uma nova produção. Trata-se da criação de um espetáculo de dança-teatro para público adulto. Estamos muito no início, em fevereiro faremos a seleção do elenco. Acredito que a estreia seja no final de agosto. Vamos torcer. Não posso adiantar muito sobre o tema, por conta da seleção do elenco, mas posso dizer que trabalharei com bailarinos e atores. Acho que vai ficar bem legal. Esse projeto foi contemplado no Fundo Estadual de Cultura  do Estado de Minas Gerais em 2016 e o recurso chegou no final de 2017. Tive de congelar por um ano a ideia. Agora estou super empolgado. É tipo: o exame de gravidez deu positivo (risadas). Mas falaremos mais sobre isso no momento certo.

Qual o maior orgulho em sua carreira?
Meu maior orgulho é, sem dúvida, o projeto de circulação pelo Norte de Minas. Desde 2006, a Ditarso companhia de dança percorre algumas cidades do nosso sertão, apresentando espetáculos infantis ou infanto-juvenis, gratuitamente. Temos uma estrutura que reproduz ao ar livre a caixa cênica de um teatro italiano. Não temos teatro em Montes Claros e nem no Norte de Minas. Então, a gente monta essa parafernália que precisa de 03 caminhões baús para transportar. Geralmente apresentamos em praças, para facilitar o acesso da população. Até hoje foram 05 turnês. Já perdemos a conta do número de pessoas que nos assistiram, mas passam de 15 mil, com certeza. 

É um projeto tão bacana que temos empresas que nos acompanham desde a primeira realização.

Amo viajar pelo meu sertão e entregar minha arte para esse povo tão bonito.

O que diria para um menino (a) que quer ser bailarino (a) profissional?
Só faça se for necessário. A dança não é fácil. Na verdade é cruel (não foi comigo, mas com colegas). Olhe bem para dentro de você e pergunte: Conseguirei viver sem isso? Se a resposta for sim, caia fora logo. Se a resposta for não, boa sorte. Procure se alimentar bem, pois artistas são o que alimentam e aqui estou falando do que se lê, assiste, ouve e vivencia. Existem muitas escolas que ensinam técnicas de dança, mas a arte... é na vida, na rua. Quer ser artista? Liberte-se dos seus limites e preconceitos. Aqui estou falando não do preconceito dos outros e sim dos que trazemos, escondidos, dentro de nos. Eles destroem a arte. Isso não será fácil.

Qual seu ballet preferido e por quê?
Bem, ballet é uma coisa específica tipo O Lago dos Cisnes, Dom Quixote, etc. E, nesse estilo, sou apaixonado por Giselle. A história de uma camponesa que é seduzida por um nobre. Ela morre ao descobri a farsa e depois de morta se transforma em uma Willis, espírito de donzelas que morrem virgens e perseguem os homens na Floresta Negra. Isso é Ballet. 

Agora falando em espetáculo de dança?
Acredito que Café Muller, da Pina Bausch, foi a coisa mais forte que já assisti. E olha que vi umas quatro vezes. Não tenho como descrever por que a dança-teatro é isso. Não há uma historinha, como no ballet, ou trata de questões explicáveis em palavras. É preciso assistir.

O que você pensa sobre a situação da dança no Norte de Minas?
Está muito no início. Fico impressionado com o esforço de pessoas como Jaqueline Pereira, Luna Guimarães e Mara David. Há muito trabalho para ser feito. Há muito para ser aprendido e compartilhado. O público, em si, não faz a mínima ideia do que seja um espetáculo de dança cênica. Em 2017, que me lembro, só Jaqueline Pereira realizou algo. Uma pequena temporada, que eu infelizmente não pude ir. 

Esclareço que não entendo os festivais das escolas de dança como um espetáculo que deva ser ofertado ao público. Não conta como ação cultural. Acho que algumas pessoas poderão ficar chateadas com o que falo, mas é isso. Os festivais das escolas de dança são exercício para os alunos e como tal, são ótimos. O público deve saber que está vendo um aluno trilhando um caminho que poderá, um dia, levá-lo à arte. Podem até ser interessantes, mas não representam uma ação cultural relevante. Em Montes Claros temos muita oferta de Festivais e quase nada de espetáculos.

Um sonho na gaveta?
Muitos! A gaveta está lotada (muitos risos). Estou é colocando em ordem, qual tirarei primeiro. Mas falo pouco sobre eles. Acredito que “entra areia”.

Paulo di Tarso por ele mesmo
Um chato (Jaqueline Pereira já me disse isso e eu concordei). Um aspirante a Humanista. Preciso de desafios e expansão. Sou inquieto.

Escuto Maria Bethania, Alcione, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, ah, toda a galera do mundo  do samba (carioca). Strauss (o Richard), Mahler, Haendel, Vivaldi, Nina Simone, Ella, vishhh é uma mistureba danada. Gosto de música. 
No momento estou lendo Charles Dickens, Uma nova Esperança. Gostou do jeito que ele escreve. Mas também já li Harry Porte (risos).