Valorizar a história, a cultura e o patrimônio de uma cidade é garantir um tesouro para o futuro. Mas poucas são as sociedades que conseguem fazer isso. Aos 161 anos de emancipação e mais de 300 de criação, Montes Claros, a “Princesinha do Norte”, tem muita riqueza para contar nos traçados dos casarões, nos templos religiosos e praças que ainda resistem à força do tempo e à ação das pessoas e gestores que teimam em ignorar o valor dos bens históricos.
Nessa entrevista, o historiador Dário Teixeira Cotrim, que adotou a cidade há mais de meio século, fala de momentos marcantes e do que é preciso para preservar a história de Montes Claros.
 
Qual é o melhor presente que Montes Claros poderia receber?
Certamente o melhor presente para a cidade de Montes Claros é o abraço carinhoso do seu povo. 
 
O senhor é especialista no período primitivo da história de Montes Claros. O que nos restou em termos de tradição cultural?
É bem verdade que pouca coisa restou da história antiga da cidade e isso se deve ao avanço do progresso em todos os segmentos. Entretanto, a perda maior foi a destruição sumária do patrimônio histórico. Velhos sobrados tombados, literalmente, na calada da noite; falta de apoio do poder público na preservação de tradições e costumes e o desinteresse generalizado da população em conhecer as origens. Por outro lado, o povo sabiamente vem cultuando os festejos religiosos, uma herança que os portugueses trouxeram para cá, assim como aconteceu em outras regiões do país. As Festas de Agosto são um exemplo vivo do que afirmamos.
 
Ainda é possível identificar a Montes Claros do passado?
Sim, através do Corredor Cultural. Lá estão alguns dos casarões e antigos sobrados. Também na praça Doutor Chaves (praça da Matriz) o visitante encontra outros velhos sobrados e a Igreja da Matriz, um pouco descaracterizada pelas reformas sofridas através dos tempos.
 
O que acha da demolição de alguns dos principais sobrados de nossa cidade?
Para nós que gostamos e admiramos a parte antiga da cidade, essas demolições representam uma atitude criminosa por parte de quem assim procede. O poder público pode e deve promover a criminalização, com a condenação dos responsáveis pela destruição dos velhos sobrados, com prisão e multas substanciadas no valor patrimonial de cada infrator. Nota-se que a nossa cidade é muito pobre neste aspecto, em comparação com as cidades da zona de mineração (Ouro Preto, Mariana, Diamantina). Em vista disso, era necessário maior empenho na preservação do patrimônio, o que não ocorreu nos tempos passados.
 
Quais são os pontos mais marcantes da história de Montes Claros, em sua opinião?
Primeiramente, a iniciativa de José Lopes de Carvalho em erigir a capelinha de Nossa Senhora e São José. Com o desenvolvimento da Vila de Montes Claros das Formigas nasceu o Mercado Municipal (foi um crime a demolição deste Mercado, assim como a da primeira casa, na rua Eva Bárbara). Nos tempos mais modernos, a cidade ganhou uma Catedral (Catedral de Nossa Senhora Aparecida) e, depois, a Estação Ferroviária, que trouxe para a região o progresso comercial e industrial.

O que é preciso ser melhorado em Montes Claros?
Conscientizar mais a população da necessidade de preservar a memória da cidade. O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros tem este objetivo e vem fazendo um trabalho gigantesco na publicação de livros sobre a história da cidade. É preciso criar mais museus, arquivos públicos e bibliotecas e incentivar a inclusão da história de Montes Claros nos currículos escolares.
 
Por que a praça Dr. Chaves ganhou este nome?
Esta praça tem o nome do advogado Antônio Gonçalves Chaves. (Não confundir com o monsenhor Antônio Gonçalves Chaves. Dr. Chaves era natural de Montes Claros, cursou Direito na mesma turma de Campos Sales e Prudente de Morais. Foi presidente da província de Santa Catarina e brilhante político de expressão nacional.