Ricardo Alves Jr. tenta puxar da memória, mas não se recorda de outro diretor mineiro que teve um filme selecionado para a principal mostra competitiva do Festival de Berlim. Ele é, provavelmente, o primeiro nome do Estado a disputar o cobiçado Leão de Ouro, após “Russa” ser anunciado entre os concorrentes na categoria de curta-metragem.

O filme foi dirigido a quatro mãos, em dupla com o português João Salaviza. Os dois já se conhecem desde quando estudaram na Universidad del Cine, em Buenos Aires, no início da década passada, e trilharam caminhos parecidos nos temas escolhidos para os seus filmes. 

Afinidade que resultou num convite do projeto Cultura em Expansão da Câmara do Porto. “Eles nos propuseram uma residência de dois meses no Porto para criar um história sobre a cidade. Queríamos sair do centro e ir para os bairros periféricos e escolhemos o Aleixo, um lugar não muito diferente do Brasil”, detalha Alves Jr. 

Moradores de grandes prédios (eram cinco torres, mas duas já foram demolidas) estão sendo desapropriados e colocados em outros bairros. “Russa” põe essa história na tela, a partir de um enredo ficcional e personagens reais. 

“Um deles explica o que está acontecendo dizendo que pobre não tem direito à vista, já que as torres possibilitam uma visão linda do rio (Douro)”.
 
INCERTEZAS
O curta serve como uma memória coletiva do bairro. Para o cineasta mineiro, essa memória surge como uma forma de resistência, em que os moradores ainda lutam para permanecerem em seus apartamentos. Vários estão repetindo um episódio ocorrido há 40 anos, quando foram retirados do bairro do Ribeira, também próximo ao rio.

“No Brasil, vivenciamos isso em 2013, quando aconteceu aquela desapropriação toda para construir outras edificações para a Copa do Mundo. No Aleixo, eles vivem essa incerteza, se vão ou não sair”, salienta Alves, lembrando também que o bairro sofre com o estereótipo de lugar perigoso devido ao tráfico de drogas.

Todos esses elementos se juntam numa trama em que a personagem que dá título à trama retorna para casa, após receber um salvo conduto para sair da prisão por um dia. “A partir dela, mostramos outra visão, sobre um bairro que tem a sua vida, seus afetos. Por isso dizemos que o filme é meu, do Salaviza e dos moradores do Aleixo, porque realmente fomos muito afetados por eles”, assinala.